28 fevereiro 2013

PROCESSAMENTO AUDITIVO CENTRAL


O QUE É O PROCESSAMENTO AUDITIVO CENTRAL?

O processamento auditivo central engloba uma série de processos que envolvem predominantemente as estruturas do sistema nervoso central (vias auditivas e cérebro). O sistema auditivo periférico e o sistema auditivo central estão envolvidos na deteção, na análise e na interpretação de padrões sonoros. A via auditiva periférica encontra-se formada desde o nascimento e engloba o ouvido externo, o ouvido médio e o ouvido interno (Figura 1). É no ouvido interno que está localizada a cóclea, esta representa a com­ponente sensorial que transforma o impulso sonoro em elétrico para que a componente neural receba, analise e programe uma resposta. Esta capacidade desenvolve-se nos primeiros anos de vida a partir da experimentação do mundo sonoro que aprendemos a ouvir. 

                                                                                                   
Figura 1: Anatomia do ouvido (Figura retirada do manual Merck on-line, em http://www.manualmerck.net/artigos/?id=235&cn=1899#ige1

 
QUAIS SÃO AS COMPETÊNCIAS AUDITIVAS CENTRAIS?

- Sensação sonora: diferenciar sons de frequências, intensidades e durações distintas;

- Localização: localizar a fonte sonora;

- Atenção auditiva: dirigir a atenção para sinais acústicos relevantes e manter a atenção durante um período de tempo adequado;

- Separação da figura do fundo auditivo: identificar a fonte sonora principal num fundo de ruído;

- Reconhecimento: distinguir diferentes elementos fonémicos da fala que são acusticamente semelhantes;

- Fechamento auditivo: compreender a palavra ou mensagem total quando falta uma parte;

- Síntese auditiva: juntar fonemas isolados para formar palavras;

- Análise auditiva: identificar os fonemas constituintes de uma palavra ou frase;

- Associação auditiva: relacionar as palavras com o seu significado;

- Memória auditiva: armazenar e evocar estímulos na ordem ou sequência correta.

 

O QUE É UMA PERTURBAÇÃO DO PROCESSAMENTO AUDITIVO CENTRAL?

É uma dificuldade de processamento da informação auditiva no sistema nervoso central para analisar e/ou interpretar padrões sonoros. O comprometimento de uma ou mais competências auditivas, tais como: consciência fonológica, atenção, memória auditiva, síntese auditiva, e compreensão e interpretação da informação auditiva, poderá significar uma perturbação do processamento auditivo. A perturbação do processamento auditivo pode estar associada a uma imaturidade na linguagem, a uma dificuldade na capacidade de aprendizagem, nas competências de comunicação, a uma perturbação do défice de atenção e hiperatividade e/ou a dificuldades de leitura. As causas que conduzem a uma perturbação do processamento auditivo podem ser várias, desde genéticas até de desenvolvimento, entre muitas, a maioria não se consegue especificar.

 
QUANDO É QUE DEVEMOS AVALIAR O PROCESSAMENTO AUDITIVO?

Os sintomas da perturbação do processamento auditivo podem variar e ter diferentes formas de manifestação. Assim, a criança pode apresentar alguns destes Sinais e Sintomas:

- É excessivamente desatenta;
 
- Tem dificuldade em acompanhar uma conversa quando muitas pessoas falam ao mesmo tempo;

- Confunde a sequência dos acontecimentos quando os quer relatar, ou não compreende uma história ou anedota com duplo sentido;

- Tem dificuldade em pronunciar o /r, l, s, z/;

- Fica confusa ao narrar uma história ou quando tem que dar um recado;

- Apresenta dificuldades na escola, principalmente na matemática e no português;

- Apresenta dificuldade em línguas estrangeiras e educação musical;

- Demora muito a conseguir aprender a ler e a escrever;

- Troca muito as letras na escrita;

- Tem uma caligrafia má;

- Confunde sistematicamente a Direita e a Esquerda;

- Não consegue perceber bem os textos que lê;

- Tem dificuldade em memorizar as coisas;

- Tem reações exageradas a sons intensos;

- Não se relaciona adequadamente com crianças da mesma faixa etária;

- Tem antecedentes de infeções de repetição nos ouvidos (otites);

- Gagueja ao falar.

 

O QUE FAZER QUANDO SE SUSPEITA DE PERTURBAÇÃO DO PROCESSAMENTO AUDITIVO?

A abordagem é multidisciplinar e permite recolher informações a nível educacional, social, linguagem/fala, cognitiva e fisiológica, de modo a se conseguir um diagnóstico e um plano terapêutico. A equipa pode ser composta por: otorrinolaringologistas, neurologistas, audiologistas, terapeutas da fala, psicólogos e professores.
 

QUAL O PRINCIPAL OBJECTIVO DA AVALIAÇÃO DO PROCESSAMENTO AUDITIVO?
 
O objetivo da avaliação do processamento auditivo central é medir a capacidade da criança em reconhecer sons verbais e não-verbais, num ambiente com condições de audição difícil. Desta forma, pode-se inferir sobre a capacidade da criança em acompanhar uma conversação em ambientes desfavoráveis, determinar as inabilidades auditivas, ter um parâmetro de medida quantitativo da qualidade da audição, de forma a ajudar no diagnóstico e no tratamento das diversas alterações da comunicação oral e escrita.


O QUE FAZER QUANDO HÁ PERTURBAÇÃO DO PROCESSAMENTO AUDITIVO?

            As crianças com perturbação do processamento auditivo devem ser encaminhadas para um Terapeuta da Fala, que terá como base a intervenção e o acompanhamento, sempre que se verifiquem alterações a nível da linguagem, da fala e/ou outro problema cognitivo/comunicativo. A intervenção passa por fornecer às crianças a oportunidade de aprender a ouvir com atenção e a processar os estímulos verbais para que posteriormente possam compreender a conversação em diferentes situações e ambientes.  
 
Manuel Viegas

Terapeuta da Fala

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bellis T, Anzalone A. (2008) Intervention Approaches for Individuals With (Central) Auditory Processing Disorder. The University of Dakota, Vermillion. Contemporary Issues in Communication Science and Disorders. Volume 35.

Engelmann L, Ferreira M. (2009) Avaliação do processamento auditivo em crianças com dificuldades de aprendizagem. Revista Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. 14(1): p. 69.

Santos L, Santos M, Neves C. (2010). Perturbação do Processamento Auditivo Central: Contributo dos Audiologistas e dos Terapeutas da Fala. Revista da Faculdade de Ciências da Saúde, nº 7. ISSN: 1646-0499.

Silva S (2007). Traços Acústicos e Perceptivos de Sons Não Verbais e da Fala. Páginas 15-17. Universidade de Aveiro. Secção Autónoma de Ciências da Saúde.

http://www.manualmerck.net/artigos/?id=235&cn=1899#ige1

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